Distopia, Livros

Resenha: O Círculo, Dave Eggers

Finalmente, a primeira resenha do ano. E é também o primeiro livro do ano. Péssimo, eu sei, mas é que eu viciei em duas séries (e em assistir entrevistas sobre essas séries), estou tentando assistir todos os filmes indicados ao Oscar e passei alguns dias cuidando do meu afilhado. Ufa. Mas agora foi. E foi bem: O círculo é uma distopia que eu estou ansiosa para ver nas telonas e, quanto ao livro… fazia tempo que algo me prendia dessa forma.

Encenado num futuro próximo indefinido, o engenhoso romance de Dave Eggers conta a história de Mae Holland, uma jovem profissional contratada para trabalhar na empresa de internet mais poderosa do mundo: O Círculo. Sediada num campus idílico na Califórnia, a companhia incorporou todas as empresas de tecnologia que conhecemos, conectando e-mail, mídias sociais, operações bancárias e sistemas de compras de cada usuário em um sistema operacional universal, que cria uma identidade on-line única e, por consequência, uma nova era de civilidade e transparência.
Mae mal pode acreditar na sorte de fazer parte de um lugar assim. A modernidade do Círculo aparece tanto na sua arquitetura arrojada quanto nos escritórios aprazíveis e convidativos. Os entusiasmados membros da empresa convivem no campus também nas horas vagas, seja em festas e shows que duram a noite toda ou em campeonatos esportivos e brunches glamurosos. A vida fora do trabalho, porém, vai ficando cada vez mais esquecida, à medida que o papel de Mae no Círculo torna-se mais e mais importante. O que começa como a trajetória entusiasmada da ambição e do idealismo de uma mulher logo se transforma em uma eletrizante trama de suspense que levanta questões fundamentais sobre memória, história, privacidade, democracia e os limites do conhecimento humano. Fonte: Skoob

O mundo criado por Dave Eggers é incrível por algo bem simples: é completamente real. É fácil imaginar que nosso vício por compartilhar em mídias sociais ultrapasse os limites do que é aceitável. No Círculo, o que eles buscam é a transparência total. Para isso, todos são incentivados a compartilhar o máximo de informações possível, até com pessoas fazendo transmissões ao vivo de, basicamente, todos os momentos em que estão acordados. Além do que escolhem compartilhar, alguns dos produtos monitoram 24h saúde, localização ou ranking escolar. Existe até projeto para organizar nossos sonhos, para transformá-los em algo útil e que nos ajude quando acordados.

“Segredos são mentiras”

A paranóia chega em um nível inacreditável e acompanhar a jornada da Mae, Kalden e Annie foi o que eu achei mais legal. Annie e Kalden já faziam parte do círculo antes da Mae e suas narrativas são opostas. Enquanto a Mae começa sem muito jeito de compartilhar as coisas e vai se tornando cada vez mais adepta das loucuras do Círculo, Annie e Kalden a começam a perceber que o futuro vai ser insuportável.

“Compartilhar é se importar”

O Círculo não é uma distopia que apresenta um universo novo, mas nos coloca para pensar sobre a loucura que pode virar a nossa vida. Já compartilhamos demais e empresas de tecnologia já estão anunciando soluções voltadas para a medicina. Mídias sociais já nos apresentam feeds selecionados e cada vez mais a internet está integrada. É assustador e parece um caminho sem volta. Dessa leitura, vi que o que mais precisamos é nos manter humanos e tentar, de todo jeito, não perder a noção do que é aceitável.

“Privacidade é roubo”

A narrativa é tranquila, apesar de cansativa em alguns momentos em que foca na apresentação dos produtos do círculo, mas vai te prendendo na loucura que é a rotina da Mae. Achei que o autor podia ter explorado mais outros personagens e tomado algumas decisões de outras maneiras. Durante todo o livro, não fazia ideia de onde o autor queria chegar e o desenvolvimento do fim não me agradou, mas não estragou minha experiência.

Acho que as reflexões que surgem a partir do livro são mais válidas que detalhes técnicos nesse caso. Nossa dependência da tecnologia, nossa sede por saber cada vez mais… Indico a leitura e indico o filme, que estreia nos Estados Unidos em abril, com Emma Watson como Mae, John Boyega como Kalden, Tom Hanks como Bailey e Karen Gillan como Annie.

 

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